A velhinha de Annestad
por Peter K. Lacklean
Velhinha de Annestadt é uma senhora idosa, com mais de sete décadas de vida bem vividas. Casou-se com apenas um homem, acha um absurdo hoje em dia as pessoas trocarem de cônjuges várias vezes sem que os respectivos faleçam, e o dela faleceu há quase vinte anos, deixando como única lembrança prontamente visível na sala de jantar um retrato de busto, numa moldura oval, com as bordas embranquecidas. Teve duas belas filhas, Soninha e Nina, que ela criou com a severidade e a doçura que a educação e o tempo exigiram, e ficou satisfeita com o trabalho. Ambas moram em Guillaumsbourg e não visitam a mãe como antigamente, é verdade, mas ainda assim convenceu-se do bom trabalho. Só o marido da Soninha que não presta.
A sua casa fica no subúrbio da cidade, onde outrora fora um sítio e as galinhas passeavam despreocupadamente na cozinha. Mas a Velhinha de Annestadt não é mesmo uma velhinha antiquada – já usa até computador! –, e sim, digamos, um pouco nostálgica. Simples, acima de tudo. Casa simples, com paredes azul-claro, cristaleira de mogno e mesa de jacarandá, de quando essas madeiras ainda não eram de lei. Relógio de pêndulo, cumbuca de barro para a água, lavabo de porcelana e fotos de revelação colorizada dos pais, muito sérios. A velhinha é calma, sensata, tem uma excelente saúde para a sua idade, ainda põe acento circunflexo em “ovo”. E vive bem.
Mas o que há de interessante na Velhinha de Annestadt para se escrever? É que ela, em boa consciência e longe da esclerose, vivendo sua vida simples, seus valores morais e seu desprendimento, ainda que tímido, dos seus anos de juventude, é a única pessoa que, real e sinceramente, acredita que o mundo tem futuro. A Velhinha de Annestadt confia no governo, no Estado, nas organizações internacionais. Acredita que a lusofonia vai pra frente. Isso tudo de cima da sua cadeira de balanço.
Ela já viveu muito, já viu muito, passou por uma revolução separatista, uma Guerra Fria, pelo principado. Chorou ao saber do sumiço da Princesa Anne Sourbonne, mas foi republicana. Não gosta de olhar para o passado, e sempre lembra dos netos ao olhar para o futuro. E, na visão pessoal da Velhinha de Annestadt, o futuro é bastante otimista.
Não que ela seja alienada ou desinformada, pois adora saber o que se passa. Mas possui um jeito único de formar as suas opiniões políticas. Ainda tem esperanças de preparar um bolo pro Lúcio Costa Wright ao convidá-lo para uma visitinha e um chazinho, já que ela mesma não pode ir sozinha a Chateau Rouge. Acha a presidente Jeniffer MacLeod “uma gracinha”, e tem toda a confiança nos “meninos no Conselho das Florestas. De maneira alguma ela se deixa envolver por fatores puramente emocionais, mas singelamente gosta de saber que as “pessoas de bem trabalham direitinho”.
Internacionalmente é a mesma coisa. Condena o paplismo (“é uma pouca vergonha!”) e sabe que, um dia, aqueles que semeiam a discórdia irão mudar. Evita comentar os incidentes e os ataques generalizados, mas nada que um bom chá de erva cidreira não acalme.
É verdade que muitas vezes a Velhinha de Annestadt é incompreendida. Já sofreu duras críticas de familiares e amigos. Uma vez, o moleque que empacotava as suas compras na vendinha perto da sua casa a chamou de fascista, mas foi fortemente repreendido. Não pela Velhinha, mas pelas pessoas que estavam na vendinha àquela hora. Isso porque, independentemente de posições políticas, por mais que haja alguns que discordem dela, ou já a considerem esclerosada, as pessoas não podem evitar de gostar dessa simpática velhinha. Ela é um doce, doce e otimista. Impossível fazer mal algum à Velhinha de Annestadt.
Este contículo é uma homenagem ao escritor Luís Fernando Veríssimo e aos micronacionalistas de todos os países.
Publicado originalmente no Utrecht Register Caderno 2 – Readers – Ano II – Edição XIV, 16 de Abril de 2002